segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Inveja, doce inveja.


Vamos fazer um breve exercício juntos, lembremos os famosos sete pecados... Ira, vaidade, avareza, gula, luxúria, preguiça... Estamos esquecendo de algum? Claro, quase sempre esquecemos a inveja, a não ser quando é nos outros, aí lembramos com uma memória infalível.
Se um dia pararmos para fazer um daqueles cansativos testes quantitaivos (faço muitos desses na faculdade) perguntando às pessoas qual dos sete pecados é mais expressivo nelas mesmas ouviremos diversas respostas. Uns dirão que é a gula "não resisto a doces, como uma caixa de bombom inteira sem perceber". Outros dirão que é a ira "sou muito estourado, perco a cabeça por qualquer coisa". Há quem dirá que é a preguiça "só acordo depois de meio-dia, e ainda cochilo pela tarde". Muitos dirão que é a luxúria "ontem peguei oito, oito? Ou foram nove?". A vaidade também será muito citada "perco duas horas para me arrumar". Até mesmo a avareza será dita "Odeio dividir as coisas, o que é meu é só meu".
Mas e a inveja? Será que somos imune a esse sentimento? Ou será que a inveja é um daqueles tipos de doença que acreditamos que nunca pega na gente, só no vizinho? Que carga de valor tão negativa há sobre ela?
A verdade é que é muito difícil admitir que sentimos inveja, poucos são os pioneiros que ousam ser tão sinceros. É o tipo de pecado que nunca enxergamos em nós mesmos, ao invés disso o deslocamos para o outro.
"Estão falando mal de mim porque sentem inveja". Quem nunca ouviu e falou essa frase antes? Ora, será que realmente sentem inveja de você? De repente estão falando mal do seu cabelo porque ele realmente está feio hoje, ou porque você fez algo para provocar o desafeto alheio.
Inveja, doce inveja... Todos sentem da gente, porém nunca sentimos de ninguém.
Será?
Para mim a inveja é um sentimento tão corriqueiro e natural quanto qualquer outro. Por exemplo, semana passada fiquei sabendo que um conhecido meu foi de helicóptero para Floripa e morri de inveja. E quando reencontei aquele amigo que não via há tempos e ele estava com um corpo que eu sempre quis ter, fiquei com tanta inveja que quase parti para a agressão física (brincadeira, dã). O que eu quero dizer com isso é que é totalmente humano sentir inveja dos outros, este é um "pecado" tão digno ou indigno quanto qualquer outro. Chega desse dedo pesado e julgador que nossa cultura botou sobre os invejosos. Claro que não vamos sair por aí como psicopatas destruindo vidas alheias porque sentimos inveja do cabelo de fulana ou porque ciclana está magérrima. Mas que a inveja seja um agente motivador, algo que nos serve como parâmetro para nos equiparar com aquilo que admiramos.
Assuma-se, saia do armário, diga ao mundo: Sinto inveja sim, e dái?
Se isso serve de incentivo, a famosa psicanalista inglesa, Melanie Klein, nos dirá que sentimos inveja desde que somos bebês. Legal, né?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Adorável Fim de Ano


É isso gente, falta exatamente uma semana para a véspera de Natal. Não sei porque (mas sei que não sou o único) sinto certa melancolia ao aproximar dessa data. Talvez melancolia seja uma palavra limitada demais para me expressar. Na verdade é uma alegria gótica, um nascimento fúnebre, uma paz estranha... Não aquela paz praiana, de baixo da sombra dos coqueiros, de frente para o mar, céu azul... É uma paz confusa, cheia de outros sentimentos condensados. Difícil definir.

Resumindo, sempre preferi o Ano Novo, nós saímos da paz melancólica do Natal e caímos direto em uma genuína euforia histérica. Na virada de um ano para o outro nos é permitido ser ridículos, por um momento podemos abraçar e beijar uns aos outros, encher a cara e ficar bêbado, perder a linha, beber champagne vagabundo, transpirar, descabelar, gritar, principalmente se tais gritos forem de "uhuuuul!". Tudo isso pode ser feito sem sermos considerados ridículos, vulgares, fanfarrões, afinal estamos protegidos pelo sagrado e inviolável direito de ser ridículo concedido pelo generoso e libertador Ano Novo. Todos vão para as ruas, praias ou qualquer outro lugar onde haja aglomeração de pessoas. Todos querem se ver, comunhão eufórica, porém verdadeiramente alegre.

Conversando esses dias com minha mãe (uma católica carola, dia sim dia não na igreja) eu indaguei "Prefiro a festa de Ano Novo, afinal o Natal é estranho, as famílias se isolam dentro de suas casas, todos se reúnem em volta de uma mesa e comem um animal morto." Ela, um pouco atingida pelo meu comentário anticristão respondeu com ironia "Claro, o Ano Novo é diferente, todo mundo sai de casa, vai para rua comer um animal vivo, ou vários."

Nada contra o menino Jesus, mas nesse natal quero fugir da melancolia tradicional de todos os anos, aquelas reuniões familiares cafonas, aquelas tias que passam dia e noite reclamando de suas doenças, aquelas comidas bregas cheias de frutas cristalizadas, aquelas rabanadas oleosas com um milhão de calorias, aquelas caixas amarelas de panetones da Bauduco, presentes enrolados em papel celofane... Vou comprar uma passagem para a Bahia e me jogar no trio elétrico, mesmo odiando axé com as minhas forças mais vicerais.

É um saco morar em um país em que não há neve no Natal, ter que decorar com algodão nossas árvores natalinas, não poder fazer bonecos de neve com narizes de cenoura. Mas enfim... Essa é outra história.

Não sei porque, mas segue em mim esse incômodo pelo Natal, por motivos já citados. Tá, se um analista ler isso vai dizer que deve ser porque não ganhei o castelo de Lego que queria quando eu era criança, ou porque nunca ganhei um tênis que acende luzinha (realmente nunca ganhei), mas e daí... Felizes são os judeus.